Publicado em: 22 de agosto de 2021 Atualizado:: agosto 22, 2021
Em entrevista coletiva realizada neste sábado (21.08), em Tóquio, o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), o brasileiro Andrew Parsons, falou sobre os desafios de planejar e organizar o maior evento esportivo do paradesporto em meio a uma pandemia. O brasileiro detalhou expectativas para Jogos de Tóquio, que terão a cerimônia de abertura na próxima terça, 24.08, destacou por que considera esta edição a mais importante da história, elogiou a capacidade de adaptação dos atletas durante a pandemia e ressaltou o salto de qualidade do esporte paralímpico brasileiro com o legado dos Jogos Rio 2016. “O Brasil vai ter um resultado incrível aqui. Com o novo centro de treinamento construído e entregue antes dos Jogos Rio 2016, eles têm uma infraestrutura de ponta para se preparar. Eles estão almejando ficar entre os dez primeiros. Podem ter seu melhor resultado de todos os tempos aqui. Estou orgulhoso do que o Brasil está fazendo”, disse.
Após um ano de atrasos e incertezas, como é estar tão perto da cerimônia de abertura?
A sensação é de certo alívio e emoção ao mesmo tempo. É fantástico estar a poucos dias da abertura. Foi muito, muito difícil para todos e para o movimento esportivo. Logo após o adiamento no ano passado, havia muita incerteza: ‘Poderemos ter os Jogos? Poderemos torná-lo seguros’? Trabalhando junto com o Comitê Tóquio 2020, com o governo do Japão e com o Comitê Olímpico Internacional (COI), foi incrível ver o progresso. Ao mesmo tempo, estávamos aprendendo com o comportamento do vírus. Foi realmente difícil porque ninguém sabia realmente o que estava acontecendo, como o mundo seria em um ano.
Quais são os principais desafios agora?
O desafio é garantir que todas as nações, todos os atletas e todos os stakeholders sigam as cartilhas estabelecidas pela organização. Já dissemos a eles que não seremos complacentes. Precisamos, de alguma forma, retribuir à população japonesa a confiança que eles depositaram em nós por termos vindo a sua nação com esses grandes eventos. Precisamos garantir que o evento não será um grande propagador do vírus, que seremos disciplinados para separar nossa própria bolha da população japonesa. Esse é o maior desafio agora, em um contexto que já é naturalmente complicado pela complexidade dos Jogos.
Como os Jogos podem ter impacto na forma como a sociedade japonesa vê pessoas com deficiência?
“Aqui no Japão existe um sentimento de superproteção às pessoas com deficiência. É um país acessível, mas você não vê muitas pessoas com deficiência nas ruas, por exemplo, e são uma em cada sete seres humanos. Onde estão? Estão sendo mantidos em casa, superprotegidos, e não precisam ser superprotegidos. Eles precisam ter oportunidades.
Acho que essa é a mensagem das Paralimpíadas. Eles podem ser atletas incríveis porque tiveram oportunidades, podem ter sucesso em todos os campos que desejem. Podem ser grandes cidadãos, pais, mães, amigos, chefes, empregados, empresários, qualquer coisa.
Normalmente é um processo de sete anos, e podemos nos preparar para os Jogos e ter esse grande catalisador, esse grande momento. Isso também acontece pela interação entre espectadores e atletas, mas como não temos espectadores aqui, estamos investindo muito em transmissão, em digital, para que possamos realmente conectar o que está acontecendo no campo de jogo com a sociedade japonesa e com o público global. Queremos que a mudança seja global, não apenas no Japão.
Qual é o papel dos Jogos Paralímpicos na campanha WeThe15?
Queremos mudar o mundo e não podemos mudar o mundo apenas por meio do esporte. Acreditamos que a mudança começa com o esporte, mas precisamos nos conectar com os demais setores da sociedade. Os Jogos Paralímpicos são o único evento no mundo com pessoas com deficiência no centro das atenções em qualquer área, mesmo se você falar de arte, cultura, política, educação, economia. Então temos a oportunidade de lançar uma campanha desse calibre, reunindo organizações que não são da área esportiva, para realmente mudar o mundo não só a cada quatro anos.
O que podemos fazer entre os Jogos Paralímpicos? Podemos fazer avançar a legislação nas nações? Tributação antecipada de tecnologia assistiva? Podemos colocar pessoas com deficiência na frente da câmera? Queremos mudar Hollywood, queremos ver mais pessoas com deficiência nos filmes. Os paralímpicos são uma pequena porcentagem das pessoas com deficiência. São exemplos incríveis, mas queremos mudar o mundo para 1,2 bilhão de pessoas.
Muitos estudos mostraram que pessoas com deficiência foram afetadas de forma desproporcional pela pandemia de Covid-19. Como isso afetará os Jogos?
É exatamente por isso que dizemos que esta é a edição dos Jogos Paralímpicos mais importante de todos os tempos. É a hora que eles precisam que suas vozes sejam mais ouvidas. Estamos dando a eles a plataforma. E não apenas por meio do esporte, é por isso que WeThe15 é tão importante. O movimento paralímpico está pronto para isso. Há anos lutamos ou buscamos ser reconhecidos como um evento esportivo de elite, como uma organização esportiva forte e relevante. E agora queremos e iremos desempenhar um papel importante no que diz respeito aos direitos humanos.
Qual é a situação com os dois atletas do Afeganistão, Zakia Khudadadi e Hossain Rasouli, que não puderam viajar para Tóquio por causa da tomada do Talibã?
No momento, parece muito difícil trazê-los (aqui) sem colocá-los em risco. Portanto, temos conversado com organizações internacionais e governos para ver o que é possível. Eles são seres humanos primeiro, precisamos garantir que estão vivos, seguros, e depois pensar neles como atletas. Eles são muito jovens, podemos apoiá-los nos preparativos para Paris 2024. Mas precisamos que eles estejam seguros primeiro.
Que tipo de mudanças nas instalações e na Vila Olímpica foram feitas para receber os atletas paralímpicos?
No que diz respeito à pandemia em si, o primeiro passo foi limpar e desinfetar a Vila e o sistema de transporte. Todos os procedimentos nos manuais permanecem, mas precisamos nos adaptar ao fato de que eles precisam de um foco mais forte na acessibilidade. E quando se trata de onde levamos os atletas, se houver um caso positivo, coisas como essa precisam ser adaptadas ao contexto das Olimpíadas.
Nas áreas de competição, você tem toda uma transição. Precisamos adaptar os pisos, os assentos em algumas arenas. Você tem atletas com deficiência e também a presença de integrantes com deficiência nos meios de comunicação e na família paralímpica. Eles também têm problemas de mobilidade que precisam ser resolvidos.
Os atletas tiveram que ser muito criativos ao treinar no ano passado. Foi ainda mais difícil para os paralímpicos?
“Não consigo dimensionar o quanto estou orgulhoso do que tenho visto ao redor do mundo com atletas paralímpicos sendo criativos nos treinamentos, adaptando-se. Ao mesmo tempo, muitos estavam indo para a linha de frente do combate à pandemia em hospitais, como médicos, como enfermeiras, em diferentes funções. Então foi absolutamente incrível ver isso.
Mas sim, claro que em alguns países o acesso às instalações não era possível. E em países que já têm problemas com transporte acessível e locais acessíveis para esses atletas treinarem, se você adicionar o componente das restrições, foi muito difícil para eles. Não poderia estar mais orgulhoso de ver esses atletas tão empolgados em chegar aqui em Tóquio e vê-los expressando o quanto estão felizes por estarem aqui.
Depois de fazer parte do Comitê Paralímpico Brasileiro por 20 anos, como você acha que a seleção brasileira vai se sair em Tóquio?
Eles vão ter um resultado incrível aqui. Os resultados dos últimos quatro anos, mesmo com a pandemia, foram excelentes. Com o novo centro de treinamento que foi construído e entregue antes dos Jogos Rio 2016 [Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo], eles têm uma infraestrutura de ponta para treinar e se preparar. A atual administração está fazendo um trabalho sensacional, é incrível ver como eles estão aproveitando todo legado dos Jogos Rio 2016. Eles estão almejando um resultado entre os dez primeiros. Podem ter seu melhor resultado de todos os tempos. E terei orgulho disso. Estou orgulhoso do que o Brasil está fazendo nos últimos anos – eles estão realmente aproveitando o Legado Rio 2016.
*Rededoesporte.gov.br, com informações de Tokyo 2020
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