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Débora Menezes: corpo e mente focados em transformar 18 minutos em ouro no parataekwondo

Publicado em: 22 de agosto de 2021 Atualizado:: agosto 22, 2021

Número dois do ranking paralímpico, brasileira será cabeça de chave e estreia nas quartas de final. Precisa vencer três lutas de seis minutos para ter direito a ouvir o Hino Nacional

Em exercícios mentais na reta final para Tóquio, Débora Menezes já vestiu quimono da seleção, subiu os degraus para o tatame oficial, testou se os sensores eletrônicos do colete das adversárias respondem aos chutes dela, acertou golpes, ajustou a defesa, se viu em desvantagem, neutralizou rivais, vislumbrou o pódio, ouviu o Hino Nacional e tateou a medalha de ouro e a bandeira do Brasil.

Listar e vivenciar todas as emoções possíveis que pode sentir, segundo ela, funciona como forma de antecipar situações e evitar que todo um trabalho físico, técnico e tático dela e da comissão técnica interdisciplinar se percam justo nos 18 minutos em que tudo precisa estar lapidado, no ponto. Segunda colocada no ranking paralímpico da categoria +58kg, Débora é uma das 12 inscritas na chave dos pesados na estreia do parataekwondo no programa dos Jogos.

“Na mesma dimensão que você trabalha o corpo, precisa trabalhar a mente, né? Na hora da pressão, se a cabeça não estiver preparada, você trava. Por isso a gente tem um trabalho feito com a nossa psicóloga para baixar a ansiedade. A gente identifica emoções que nos atrapalham, simula como poderia ser diante de cada adversária, até para evitar surpresas, sabe?”, explicou Débora, que faz os últimos treinos e avaliações no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, antes de embarcar para Tóquio na segunda, 23.08.

Na fase pré-viagem, tanto Débora quanto os outros dois atletas da delegação nacional na modalidade fazem exercícios de dormir, a cada dia, uma hora mais tarde, para que o corpo estranhe menos o fuso horário de 12 horas do Japão em relação ao Brasil. “Cada dia a gente dorme uma hora mais tarde, treina mais tarde, faz refeições em horários diferenciados, para simular como se já estivéssemos no Japão”.

Três lutas

Por sua posição de destaque no ranking, a campeã mundial de 2019 será cabeça de chave no torneio paralímpico. Com isso, já estreia nas quartas de final. Como cada luta é composta por três rounds de dois minutos (se não houver empate), 18 minutos regulamentares separam a paulista da chance de transformar a mentalização do Hino Nacional em realidade.

“Eu me imagino no pódio, com a medalha paralímpica dourada e ouvindo o hino da nossa nação. Claro que em Jogos Paralímpicos qualquer medalha tem valor, mas temos que ter essa mentalidade de campeão, de acreditar, de visualizar. Seria a coroação de um trabalho duro durante todo o ciclo que vem desde 2017, sabe? Se não der, não deu, é esporte, é do jogo. Mas sairei com a certeza de que tentei o melhor”, disse.

De acordo com Débora, além de projetar a própria performance nos Jogos, há no processo a motivação de ajudar a consolidar o parataekwondo no programa paralímpico. “Meu sonho é deixar um legado para esporte brasileiro e para o parataekwondo. A gente percebe um movimento grande de fortalecimento da modalidade. Queremos que se mantenha por anos no programa dos Jogos”, disse.

Bacharel em educação física, Débora nasceu com má-formação abaixo do cotovelo direito. Conheceu os esportes paralímpicos no fim da graduação. Competiu no lançamento de dardo até 2013, quando começou a praticar o parataekwondo por hobby. Em 2015, recebeu o convite para dedicar-se ao alto rendimento e rapidamente ganhou projeção internacional. Além de campeã mundial na Turquia, foi medalhista de prata nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, no Peru, também em 2019.

Adiamento providencial

O período sem competições durante a pandemia gerou para Débora, de um lado, a necessidade de adaptações de treinos e até uma mudança para Curitiba durante a fase de restrições em São Paulo. Mas, ao mesmo tempo, o adiamento dos Jogos de 2020 para 2021 veio a calhar para que ela pudesse ter tempo de tratar de lesões que a impediriam de chegar a Tóquio, na data original, no melhor de sua forma.

“Depois do Parapan eu tive uma lesão e aí entrou a pandemia, mas a gente não saiu do trilho. Buscamos alternativas. Precisamos nos reinventar em várias situações. Uma delas foi o tatame, porque não tenho em casa, então precisei treinar um tempo num piso totalmente diferente, sem suporte de fisioterapia, de parte médica. Mas se não podia fazer o treino no tatame, passei a treinar minha defesa, a assistir a lutas, a estudar as adversárias. Em parceria com a psicóloga, transformamos a frustração de não poder fazer tudo para trabalhar a inteligência emocional”, afirmou.

“Se a Paralimpíada de Tóquio fosse em 2020, eu provavelmente não estaria 100% em forma. A pausa nas competições forçada pela pandemia me deu tempo para me recuperar da lesão. Com um trabalho direcionado, em 2021 chego voando”, afirmou.

Em junho de 2021, Débora teve a oportunidade de retomar o ritmo de competições num torneio Pan-Americano no México. Lá, chegou à final, mas acabou não encerrando a luta decisiva por levar uma pancada que a impediu de seguir no combate. Nada que comprometesse a reta final de preparação, mas um termômetro importante para que ela e a equipe técnica entendessem que o caminho trilhado é promissor.

 

*Gustavo Cunha, de Tóquio, no Japão – rededoesporte.gov.br


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