Publicado em: 22 de agosto de 2021 Atualizado:: agosto 22, 2021
A próxima sexta-feira (27.08), data em que a seleção feminina de vôlei sentado entra em quadra para a partida de estreia nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, contra o Canadá, será lembrada pela meio de rede Luiza Fiorese, também, como o dia em que concretizou um sonho de criança. Apaixonada por esportes desde cedo, Luiza viu o objetivo de ser uma esportista profissional adiado por um câncer nos ossos, aos 15 anos, mas reencontrou no esporte paralímpico o caminho que sempre quis trilhar.
A capixaba, que antes da cirurgia que removeu partes do joelho, fêmur e tíbia de sua perna esquerda era jogadora handebol, teve adaptação meteórica ao vôlei sentado. Convidada a conhecer a modalidade pela líbero (e agora companheira de seleção) Gizele após participar de um programa de TV, no fim de 2018, teve o primeiro contato com as quadras em abril de 2019. Em dezembro do mesmo ano, foi convocada para a seleção pela primeira vez. Afastada do esporte por seis anos, enquanto cursava jornalismo, Luiza chegou a pensar que não ocuparia exatamente o lugar que tinha imaginado em seu destino.
“Ela (Gizele) não fazia ideia de que eu tinha esse histórico como atleta. Eu sentia um vazio, sabe? Tentei buscar o esporte de outras maneiras, mas nunca foi preenchido de fato. Só quando voltei mesmo a praticar, estar dentro de quadra, viver esse universo de atleta. Quando conheci a modalidade paralímpica, parece que o mundo se abriu de novo para mim. As coisas começaram a fluir bem, além da minha dedicação, do meu empenho de abrir mão de tudo para treinar, o destino foi generoso comigo. Tudo começou a dar certo, fluir bem, tanto é que hoje estou aqui em Tóquio”, analisa.
Apesar de ainda “novata” no movimento paralímpico, a central já ocupa posição de destaque como uma das mais relevantes vozes do paradesporto nacional nas redes sociais. Com mais de 32 mil seguidores no Instagram, a atleta e jornalista acredita que pode levar uma importante mensagem de inspiração e exemplo por meio do esporte.
“É claro que minha prioridade sempre vai ser meu rendimento dentro de quadra, mas em paralelo a isso tem um mundo por fora que a gente consegue influenciar. Acho que meu destino de ter ficado longe do esporte por seis anos, de ter ido pra comunicação, de ter feito jornalismo, tudo foi perfeito. Eu não mudaria nada. Acho que hoje consigo falar para muita gente, atingir muitas pessoas, pessoas com deficiência. Costumo falar que precisamos de ídolos mais plurais. Quando a gente pensa em ídolos a gente vê pessoas muito iguais. A gente precisa de ídolos mulheres, a gente precisa de ídolos com deficiência, a gente precisa de pessoas que outras pessoas olhem e se inspirem mesmo, sabe? Eu me vejo essa pessoa na vontade de inspirar outras, porque estava fora, estava perdida”, aponta.
Virar a chavinha
Habituada aos dois lados da comunicação esportiva, Luiza avalia que as mídias digitais oferecem uma oportunidade de transformação do discurso quando o assunto é paradesporto. “A sociedade nos impõe limites e acabamos nos esquecendo de colocar nossos próprios limites. É importante, sim, respeitar nossos limites, mas que eles sejam nossos, que não sejam os que as pessoas colocam na gente. As redes sociais hoje têm um papel essencial na nossa voz, porque antes estávamos condicionados às mídias em geral, à televisão, ao jornal. Às vezes a conotação que era dada nisso era muito a da ‘superação’. Eu acho que isso já deu, sabe? A gente precisa virar a chavinha. Toda entrevista que dou, as pessoas pedem muito para falar: ‘Você é um exemplo de superação’. Eu falo, cara, vamos mudar essa mentalidade, eu quero ser essa pessoa para bater de frente mesmo, por mais que tenha pouco tempo de movimento paralímpico. A gente não é só exemplo de superação, a gente é atleta. A gente treina, a gente vibra, a gente chora, a gente é cobrado da mesma forma”, opina.
Sobre as expectativas para a competição, a jogadora fez análise semelhante à do técnico da seleção, Luis Agtônio Guedes Dantas, que centra foco total na chegada à final. “Nenhuma seleção, do Rio para cá, evoluiu tanto quanto a nossa. São seleções que têm um nível técnico muito alto, mas que se mantiveram no mesmo nível. Tóquio vai ser o pilar, mesmo, para a gente entender aonde pode chegar. Uma final paralímpica não tem favorito, sabe? É quem está em um dia melhor, quem treinou mais, quem consegue lidar melhor com a pressão. É o que o Guedes [técnico da seleção] costuma falar: ‘a gente pode até não ganhar essa medalha de ouro, mas nosso adversário vai ter que jogar muito para ganhar da gente, porque a gente quer muito isso”, prevê.

Investimento no vôlei sentado
Vinte e dois dos 24 atletas do vôlei sentado em Tóquio (levando em conta as seleções masculina e feminina) são integrantes do Bolsa Atleta, programa de patrocínio individual do Governo Federal Brasileiro, num aporte somado de R$ 2,4 milhões no ciclo entre os Jogos Rio 2016 e Tóquio 2021. Levando em conta a modalidade como um todo, o Governo Federal Brasileiro concedeu 308 bolsas no ciclo Rio-Tóquio, num investimento direto de R$ 5,6 milhões.
“Com certeza esse é um apoio fundamental para a gente. Eu acho demais, eu acho uma iniciativa muito legal. A ideia de igualar o valor do olímpico e do paralímpico, sabe? A gente ainda vê muita diferença de tratamento da mídia, das empresas. Então, tem que começar pelo governo, tem que ter esse exemplo governamental. O fato de receber o mesmo que o atleta olímpico já faz a gente se sentir mais importante, mais imponente e com o devido valor que merece. A gente acredita muito no poder de transformação do esporte e sabe, tanto a nível paralímpico, quanto nacional ou estudantil, como é importante. É muito importante, é muito legal a gente continuar fomentando isso nas pessoas, continuar influenciando para o bem e olhando para as pessoas como iguais, é superimportante ter essa conotação”, lembrou Luiza.
*Pedro Ramos, de Tóquio, no Japão – rededoesporte.gov.br
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